Vamos fazer as contas. Brasil, 1962. Foi a última vez que uma seleção defendeu o título da Copa do Mundo. Sessenta e quatro anos. Todos os campeões desde então tentaram o bi consecutivo e voltaram para casa de cabeça baixa.
Itália em 2010: eliminada na fase de grupos. Espanha em 2014: o mesmo. Alemanha em 2018: lanterna do grupo. França em 2022: chegou à final, mas não levantou a taça. A maldição é real, está documentada, e agora é a vez da Argentina de encará-la.
A pré-lista de 55 jogadores saiu. Falta pouco mais de um mês para a bola rolar. E La Scaloneta chega ao Mundial carregando três problemas sérios: uma epidemia de lesões, uma sequência de adversários que deixou a desejar e um enorme ponto de interrogação chamado Lionel Messi.
PatrocinadoDefender o título da Copa do Mundo é a tarefa mais dura do futebol. A Argentina está prestes a descobrir por quê.

O DEPARTAMENTO MÉDICO: A MAIOR DOR DE CABEÇA DE SCALONI
Montar a lista final de 26 se resume a uma pergunta: quem chega inteiro ao dia 16 de junho?
Cristian "Cuti" Romero, capitão do Tottenham e esteio da defesa argentina, se machucou em meados de abril. Estiramento do ligamento colateral medial do joelho direito. Seis a oito semanas fora. Ele pode até estar fisicamente disponível para a estreia contra a Argélia, mas sem um minuto sequer de jogo oficial nas pernas. Estar saudável e estar pronto não é a mesma coisa. Qualquer torcedor que já viu uma final sabe disso.
Nahuel Molina, lateral-direito do Atlético de Madrid e autor de gols importantes na Champions League nesta temporada, sofreu uma lesão muscular na semana passada. Grau 1, 21 dias de recuperação. O relógio não perdoa. Ele deve chegar à estreia, mas também sem ritmo de jogo.
Lisandro Martínez volta aos poucos no Manchester United após uma grave lesão no joelho. Está entre os 55, mas ninguém sabe se estará pronto.
Lautaro Martínez: El Toro rompeu o sóleo em fevereiro. Voltou contra a Roma, marcou dois gols e sentiu de novo no mesmo local. Vai lutar para estar lá, mas o prazo está apertadíssimo.
Nicolás González sofreu uma lesão muscular pouco antes do confronto do Atlético de Madrid com o Arsenal na Champions League. Três a quatro semanas fora. Mais um que chega no limite.
Juan Foyth nem aparece na lista. Rompeu o tendão de Aquiles. A Copa dele acabou antes de começar.
Uma boa notícia? Nicolás Otamendi. "El General" estava suspenso após ser expulso contra o Equador nas Eliminatórias, mas a FIFA aplicou uma anistia geral, articulada pela AFA com Chiqui Tapia à frente, e o veterano do Benfica estará à disposição para a estreia contra a Argélia. São 130 jogos e 8 gols com a camisa alviceleste. Sua quarta Copa do Mundo. E, com Cuti chegando sem ritmo de jogo, Otamendi se torna o farol natural da zaga.
São nomes demais e margens apertadas demais. As próximas semanas serão decisivas.

AS SURPRESAS QUE SACUDIRAM O FUTEBOL ARGENTINO
A lista de Scaloni não chamou atenção só por quem está nela. Chamou atenção pelos nomes que ninguém esperava.
Santiago Beltrán, 21 anos, goleiro do River Plate. 1,91 m, canhoto. Na noite anterior à divulgação da lista, ele se tornou o jovem goleiro mais comentado do país.
Nas oitavas de final do Apertura, em 10 de maio, o River empatou com o San Lorenzo por 1 a 1 no tempo normal. Marcos Acuña emendou de voleio para empatar, após um passe primoroso de Quintero. Na prorrogação, o San Lorenzo foi à frente com gol de cabeça de Fabricio López. O River parecia morto e enterrado. E então Quintero, sempre Quintero, apareceu com um gol dramático na última jogada do segundo tempo da prorrogação. 2 a 2. Pênaltis.
A disputa? Uma loucura absoluta. O San Lorenzo teve três match points, três momentos em que uma cobrança classificaria o time. Galoppo perdeu. Páez mandou a bola na arquibancada do Monumental. Perruzzi chutou por cima do travessão. E, entre elas, Beltrán. Duas defesas decisivas: primeiro em Gregorio Rodríguez, depois a defesa fatal em Mathías De Ritis. River classificado por 4 a 3. Nascia uma estrela.
A inclusão entre os 55 é a primeira convocação dele para a seleção principal. Estará entre os 26 finais? Difícil: Dibu Martínez, Rulli e Musso estão à frente. Mas o recado de Scaloni é claro: o garoto está nos planos de longo prazo. Ele estuda economia na Universidade de Buenos Aires, chegou ao River quase aos 18 anos sem passar por uma base formal da AFA e agora está numa pré-lista de Copa do Mundo. Parece roteiro de filme.
Tomás Aranda, garoto do Boca, um dos destaques da temporada argentina. Scaloni o elogiou pessoalmente: "É um jogador muito interessante e uma grande revelação."
Mateo Pellegrino, atacante do Parma, na Serie A. Nunca havia sido convocado. Mais opções para o elenco.

QUEM FICOU DE FORA, E POR QUE DÓI
A lista também conta uma história pelas ausências.
Paulo Dybala, La Joya, que já foi peça central da seleção, ficou de fora. São 40 jogos, quatro gols e uma medalha de campeão do mundo. Mas uma temporada castigada por lesões e uma cirurgia no menisco que o tirou de combate por quase três meses custaram a vaga. Essa dói.
Valentín "Taty" Castellanos, atacante do West Ham, que havia ganhado minutos nas Eliminatórias, também ficou de fora.
Seis campeões do mundo de 2022, no Catar, não estão na lista. A geração que levantou a taça em Lusail está sendo aos poucos substituída na seleção. A nova onda chegou.
E a nova onda faz barulho. Alejandro Garnacho (Chelsea), Matías Soulé (Roma), Claudio Echeverri (Girona) e Franco Mastantuono (Real Madrid) estão na lista. Gianluca Prestianni (Benfica) também, apesar de uma suspensão mundial da UEFA por insultos racistas e homofóbicos dirigidos a Vinícius Júnior na Champions League. Se for à Copa do Mundo, perderá os dois primeiros jogos. Scaloni o apoiou mesmo assim.
A presença do campeonato local? Mais forte do que o esperado. Seis jogadores do River Plate na lista: Beltrán, Montiel, Martínez Quarta, Pezzella, Acuña e Aníbal Moreno. Quatro do Boca: Di Lollo, Paredes, Delgado e Aranda. Gabriel Rojas, do Racing, completa a representação local.

O EQUILÍBRIO: GAROTOS X CAMPEÕES
A lista grita pelo menos uma mensagem: os "europibes" estão assumindo o volante.
Nico Paz, 21 anos, grande temporada no Como, formado na base do Real Madrid. Uma das apostas mais seguras de Scaloni.
Giuliano Simeone joga regularmente no Atlético de Madrid sob o comando do pai. Funcional, incansável, exatamente o perfil que Scaloni adora.
Garnacho saiu do Manchester United para o Chelsea. 21 anos, enorme futuro, mas poucos minutos na reta final.
Mastantuono, 18 anos, deixou o River rumo ao Real Madrid em uma negociação recorde. Sua primeira temporada no Bernabéu tem sido irregular, com período de adaptação e altos e baixos. Teve dificuldade para se firmar, mas está na lista.
Do outro lado, a espinha dorsal do Catar. Paredes, De Paul, Mac Allister, Enzo, Julián Álvarez. A estrutura se mantém. Mas nem todos chegam no auge da forma.
De Paul está no Inter Miami agora. MLS. "Ele sempre será jogador de seleção", mas o nível competitivo daquela liga em comparação com a Europa fica bem abaixo.
Enzo Fernández fez uma temporada sensacional no Chelsea, com cinco títulos em dois anos, apesar da repercussão do escândalo dos cânticos racistas na Copa América de 2024.
Julián Álvarez marcou 10 gols em 15 jogos de Champions League nesta temporada. Um fenômeno. Mas quase não jogou no Campeonato Espanhol no último mês, com uma novela de transferência ao fundo: Barcelona, Arsenal e PSG rondam.

GRUPO J: ARGÉLIA, ÁUSTRIA E JORDÂNIA
A Argentina caiu no Grupo J. Três adversários, três provas diferentes.
Terça-feira, 16 de junho: Argélia (Arrowhead Stadium, Kansas City, 22h no horário argentino). Classe africana. Riyad Mahrez, o mágico canhoto do Al-Ahli, ex-Manchester City, tem 35 anos, mas segue sendo o coração técnico da equipe. Muito drible, muita pausa, muita troca de passes. O primeiro teste é contra o adversário de maior pedigree do grupo.
Segunda-feira, 22 de junho: Áustria (AT&T Stadium, Dallas, 14h). Pura disciplina europeia. Ralf Rangnick e seu sistema de gegenpressing: alta intensidade, recuperação rápida, sufoco constante. Taticamente, a seleção mais organizada do grupo. Se a Argentina tiver problemas contra a Argélia, aqui a coisa vai esquentar de verdade.
Sábado, 27 de junho: Jordânia (AT&T Stadium, Dallas, 23h). Estreante em Copas do Mundo. Um país de 11 milhões de habitantes, classificado pela primeira vez na história. A Argentina é grande favorita, mas a energia de quem "não tem nada a perder" é sempre perigosa.
E fique de olho no sorteio das oitavas de final: se a Argentina terminar em primeiro no grupo, objetivo claro, enfrentaria o segundo colocado do Grupo H. Esse grupo? Espanha, Uruguai, Arábia Saudita e Cabo Verde. Traduzindo: Espanha ou Uruguai esperando na porta do mata-mata. É ali que tudo muda.

MESSI: À BEIRA DOS 39 ANOS, AINDA SEM RESPOSTA
E no centro de tudo, o homem sem o qual nenhuma história da Argentina fica completa.
Lionel Messi está na lista de 55. Mas se vai jogar a sexta Copa do Mundo, ele ainda não disse publicamente.
Seu início de temporada no Inter Miami demorou a chegar. Mesmo assim, ele tem jogado os 90 minutos e, nas palavras da ESPN, "sua capacidade de fazer gols continua intacta". Ele continua sendo Messi, independentemente do calendário.
Em 24 de junho, entre o segundo e o terceiro jogos da fase de grupos, ele completa 39 anos. Se a Argentina chegar à final, ele seria finalista de Copa do Mundo aos 39. Território inexplorado. Nenhum jogador jamais fez isso nesse nível.
O dilema de Scaloni é claro: escalá-lo entre os titulares? Guardá-lo para o banco? Dividir seus minutos entre os três jogos da fase de grupos? O próprio Scaloni chamou de "um verdadeiro segredo". Nem ele tem a resposta fechada.
E um fato dá peso a todo o quadro: nos últimos 12 jogos, a Argentina não enfrentou nenhuma seleção do top 20 da FIFA. Angola, El Salvador, Curaçao, Indonésia, Zâmbia. A Finalissima contra a Espanha, que seria um teste de verdade contra uma seleção de nível de Champions League, foi cancelada. A Argentina chega à Copa do Mundo sem ter se testado contra ninguém da elite desde o Catar. Em uma Copa, isso pode cobrar a conta.
O RELÓGIO NÃO PARA
Os campeões rumam para a América do Norte. Messi, provavelmente, com eles. Mas quão prontos estão de fato para uma briga séria? Essa resposta só vem em 16 de junho, em Kansas City, quando o árbitro apitar o início da partida.
Faltam apenas cinco semanas. Antes, dois amistosos: Honduras em 6 de junho, no Texas, e Islândia em 9 de junho, no Alabama. Depois, a estreia. E então 64 anos de maldição à espera de serem quebrados.
La Scaloneta tem o que é preciso? Consegue colocar a Argentina na história?
A contagem regressiva começou. E a bola, como sempre, terá a última palavra.




