O que está acontecendo no futebol mundial?

De um lado, o cenário é alarmante. Rodri — um dos jogadores centrais do Manchester City — fala abertamente sobre uma greve. A FIFPRO — principal sindicato dos jogadores — apresentou uma queixa contra a Fifa na Comissão Europeia. Heung-Min Son diz com clareza: "Não somos robôs." Raphaël Varane — um dos zagueiros mais vitoriosos do futebol — se aposentou aos 31 anos, após uma lesão no joelho que veio na esteira de anos de desgaste físico acumulado.

Do outro lado, a Fifa segue em frente. A Champions League foi ampliada. O Mundial de Clubes passou a ter 32 equipes. A Copa do Mundo de 2026 terá 104 jogos, em vez de 64. O calendário está pegando fogo.

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O que realmente está acontecendo? Quem está contra quem? O que está em jogo? E por que as maiores estrelas do futebol mundial acreditam que "não há outra escolha a não ser a greve"?

Esta é uma reportagem que tenta reunir o quadro completo em um só enquadramento.

De 70 a 80 jogos por temporada, prêmio de US$ 1 bilhão e greve no horizonte: por dentro da guerra entre jogadores e Fifa

"ESTAMOS PERTO DE UMA GREVE" — AS PALAVRAS DE RODRI QUE SE MOSTRARAM PROFÉTICAS

Em setembro de 2024, o meio-campista do Manchester City Rodri falou em entrevista coletiva antes da estreia na Champions League contra a Inter de Milão. A declaração repercutiu em todo o mundo do futebol.

"Acho que estamos perto disso", afirmou o espanhol. "Se você perguntar a qualquer jogador, ele vai dizer a mesma coisa. Não é a opinião do Rodri ou de quem for — é a opinião geral dos jogadores. E, se continuar assim, vai chegar um momento em que não teremos outra opção."

Ele acrescentou a frase que se tornou central no debate: "Pela minha experiência, entre 40 e 50 é o número de jogos em que um jogador consegue render no mais alto nível. Depois disso, você cai, porque é impossível sustentar o nível físico. Este ano podemos chegar a 70, talvez 80."

Quanto tempo levou para o alerta se confirmar? Cinco dias.

Em 22 de setembro de 2024, Rodri rompeu o ligamento cruzado anterior em uma partida do Campeonato Inglês contra o Arsenal, no Etihad. Sua temporada acabou. A temporada de um dos jogadores mais importantes do mundo, que semanas antes era favorito à Bola de Ouro, terminou numa maca, o preço de um corpo sobrecarregado.

Aquilo de que Rodri falava não era teórico. Era real. E, no centro da conversa, o próprio corpo dele se tornou uma das provas mais fortes.

A AÇÃO JUDICIAL DA FIFPRO — A FRENTE É ABERTA

E chegou o momento em que as palavras viraram ação.

A European Leagues e a FIFPRO Europa já tinham anunciado a intenção de apresentar a queixa em julho de 2024, antes da declaração de Rodri. A queixa formal à Comissão Europeia, com a adesão da LaLiga, foi protocolada em 14 de outubro de 2024, um mês após o alerta de Rodri.

A acusação é de que a Fifa violou a legislação de concorrência da União Europeia. Especificamente:

— a ampliação do Mundial de Clubes para 32 equipes (junho e julho de 2025, nos Estados Unidos)

— a ampliação da Copa do Mundo para 48 seleções (2026, nos Estados Unidos, no Canadá e no México)

— a imposição unilateral do calendário de jogos internacionais pela Fifa

O comunicado conjunto da FIFPRO classificou as ações da Fifa como "abusivas" e "injustificadas" e descreveu a posição dominante da entidade como "indiscutível".

A Fifa respondeu quase de imediato no X: "O calendário atual foi aprovado por unanimidade... após uma consulta ampla e inclusiva, que incluiu a FIFPRO e entidades de ligas. Algumas ligas da Europa — elas mesmas organizadoras e reguladoras de competições — agem por interesse comercial próprio, com hipocrisia e sem considerar o panorama global."

O presidente da Uefa, Aleksander Čeferin, seguiu a mesma linha, mas com arestas mais afiadas: "Para ser justo com os que estão sobrecarregados, mantenho o que disse dois meses atrás: não há espaço para jogos adicionais. Mas preciso acrescentar: quem está reclamando? Os que têm os maiores salários e os [clubes] com 25 grandes jogadores."

O diretor-executivo da PFA, Maheta Molango, rebateu: "O impacto do congestionamento de jogos e do aumento da carga de trabalho dos atletas não é mais um problema que vem por aí. Ele já está aqui. Este é o ano em que podemos olhar para o calendário e dizer com clareza: 'isso não funciona'."

Além disso, a Premier League e a PFA apresentaram uma ação judicial independente contra a Fifa. Não há uma única frente. Há várias. E a Comissão Europeia deve levar até 12 meses para decidir se abre uma investigação formal.

O que você acha? Quando uma queixa judicial coordenada parte do sindicato dos jogadores e das ligas e chega aos reguladores da UE, isso ainda é apenas "barulho"?

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AS VOZES DAS ESTRELAS

E enquanto Rodri deu a declaração mais forte, outras estrelas já faziam parte da conversa.

Heung-Min Son, capitão do Tottenham e da Coreia do Sul, disse à Sky Sports sem rodeios: "Não somos robôs. Quero que o número de jogos diminua."

Manuel Akanji, zagueiro do Manchester City, apoiou os comentários de Rodri quase imediatamente e brincou que talvez tenha de se aposentar aos 30: "É muito difícil. Você não pensa só nesta temporada, mas também na próxima. Quando temos férias?"

Alisson Becker, goleiro do Liverpool, sofreu com problemas de lesão prolongados, ligados abertamente à carga de jogos. Assim como Akanji, ele pediu publicamente que as autoridades do futebol consultem os jogadores com mais profundidade ao tomar decisões que afetam a carga de trabalho deles.

Harry Kane, atacante do Bayern de Munique e da Inglaterra, foi direto em 2025: as preocupações dos jogadores com o calendário congestionado de jogos internacionais simplesmente "não estão sendo ouvidas".

Carlo Ancelotti, ex-técnico do Real Madrid e hoje no comando da seleção brasileira, descreveu a situação em termos ainda mais duros: "Os jogadores até aceitariam um corte salarial se isso significasse jogar menos partidas. O calendário não é fisicamente sustentável."

Lionel Scaloni, técnico da Argentina, falando especificamente dos jogadores sul-americanos, disse: "A realidade é que, para os sul-americanos, a carga de trabalho é insuportável, somada às constantes viagens entre continentes. Isso não vai melhorar, porque os jogadores atuam na Europa e o número de jogos não vai mudar."

Técnicos campeões, capitães de seleções, figuras centrais de clubes: todos falam a uma só voz, sobre um único tema. O padrão não é mais de algumas queixas isoladas. É uma mensagem coordenada vinda do topo do esporte.

De 70 a 80 jogos por temporada, prêmio de US$ 1 bilhão e greve no horizonte: por dentro da guerra entre jogadores e Fifa

OS NÚMEROS — DE 70 A 80 JOGOS CONTRA 50

E enquanto as declarações se acumulam, os dados são igualmente claros.

Segundo a FIFPRO, os jogadores de elite hoje disputam em média de 70 a 80 jogos por temporada. Dez anos atrás, menos de 50. A tendência de mais jogos não está desacelerando.

Manchester City e Chelsea, dois dos clubes mais afetados nesta temporada, podem ter jogadores atuando de 75 a 90 partidas somando clube e seleção. O calendário competitivo praticamente preenche os 365 dias do ano e quase não deixa período de recuperação. Não é uma "temporada com uma pequena pausa depois": é um ano inteiro em que qualquer período relevante de recuperação desapareceu na prática.

O Real Madrid, campeão da Champions League da temporada passada, fará cerca de 70 jogos nesta campanha, um aumento de aproximadamente 10 em relação ao padrão anterior. O Bayern de Munique também: +10. A ampliação do calendário é medida diretamente contra o desgaste físico dos jogadores.

Um relatório encomendado pela FIFPRO e publicado em novembro de 2024 pela universidade belga KU Leuven concluiu que o setor do futebol profissional está "falhando em seu dever de aplicar os padrões de segurança exigidos aos jogadores" — uma acusação direta de que o próprio sistema não cumpre as normas de segurança europeias.

E o golpe final: a temporada 2025/26. Ela termina com a Copa do Mundo de 2026. São 104 jogos em vez de 64, ou seja, 40 partidas a mais no calendário global. Provavelmente a temporada mais sobrecarregada da história do futebol.

O calendário não está "um pouco apertado". O calendário é fisicamente impossível.

De 70 a 80 jogos por temporada, prêmio de US$ 1 bilhão e greve no horizonte: por dentro da guerra entre jogadores e Fifa

É exatamente nesse contexto que Raphaël Varane — zagueiro da França, campeão da Copa do Mundo de 2018 e tetracampeão da Champions League pelo Real Madrid — se aposentou do futebol aos 31 anos.

Varane deixou o Manchester United ao fim do contrato, em 2024, e assinou com o Como, da Serie A, naquele verão. Em 11 de agosto de 2024, com apenas 23 minutos de jogo na estreia pelo Como, contra a Sampdoria, pela Copa da Itália, ele sofreu uma grave lesão no joelho. Em 25 de setembro de 2024, na mesma semana do alerta de greve de Rodri, Varane anunciou a aposentadoria.

Em entrevista anterior ao L'Équipe, em abril de 2024, Varane havia falado abertamente sobre o desgaste acumulado do corpo, embora o foco fosse especificamente as concussões, e não apenas o volume de jogos: "De técnicos a jogadores, compartilhamos há muitos anos a preocupação de que há jogos demais, o calendário está superlotado e isso chegou a um nível perigoso para o bem-estar físico e mental dos atletas."

Ele foi além: "Não vou viver até os 100. Sei que prejudiquei meu corpo. Eu me coloquei em risco. Ao falar sobre isso, talvez as situações possam ser mais bem analisadas e as decisões tomadas com base nos riscos."

Um campeão mundial de 31 anos abandona o jogo. O modelo financeiro que produziu sua carreira acabou também quebrando o seu corpo.

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E POR FIM, O DINHEIRO. POR QUÊ?

Por trás de cada parte dessa crise há um fato claro: dinheiro.

Por que o Mundial de Clubes foi ampliado para 32 equipes? Por que a Copa do Mundo foi ampliada para 48 seleções? Por que a Champions League se transformou em uma fase de liga com 36 clubes? Por que o calendário ganha jogos extras quase todo ano?

A resposta: direitos de transmissão, patrocinadores, venda de ingressos, valor de marca, receita.

De 70 a 80 jogos por temporada, prêmio de US$ 1 bilhão e greve no horizonte: por dentro da guerra entre jogadores e Fifa

E um número específico deixa o quadro muito claro. A premiação do Mundial de Clubes da Fifa: US$ 1 bilhão. Um torneio. Um mês. Um bilhão de dólares.

O campeão, o Chelsea, levou cerca de US$ 114 milhões. O Real Madrid, quase US$ 80 milhões. Os demais clubes participantes, quantias substanciais cada um. A escala do dinheiro conta uma história: o dinheiro do Mundial de Clubes vem dos torcedores, das emissoras, dos patrocinadores. O dinheiro se tornou o mecanismo central.

E é exatamente aí que se concentra a resistência. Fifa e Uefa não jogam "contra o futebol". Elas jogam dentro da lógica interna da expansão financeira. O calendário, para elas, é um gerador de receita. A expansão, uma importante fonte de novos ganhos.

E os jogadores? Os jogadores são a matéria-prima humana. A camada física de trabalho sobre a qual todo o modelo é construído.

E é aqui que o conflito esquenta. O US$ 1 bilhão da Fifa continua sendo uma cifra impressionante. Mas, para um jogador individualmente, há o ligamento cruzado de Rodri, um ano inteiro afastado. O "não vou viver até os 100" de Varane. As lesões recorrentes de Alisson. Esse é o preço físico que os jogadores pagam para que a máquina financeira continue funcionando.

Segue-se uma pergunta um pouco cínica: os jogadores já recebem salários altos. Muito altos. Então por que estão aderindo à resistência?

E aqui surge o detalhe que coloca todo o quadro em foco: a declaração de Carlo Ancelotti. "Os jogadores até aceitariam um corte salarial se isso significasse jogar menos partidas."

Isso já não é dinheiro contra dinheiro. É sobrevivência física contra expansão financeira. E os jogadores — os melhores do mundo, que ainda têm muito dinheiro a ganhar — estão dispostos a abrir mão de parte dele.

O calendário agora está transformando o próprio futebol em uma máquina financeira.

De 70 a 80 jogos por temporada, prêmio de US$ 1 bilhão e greve no horizonte: por dentro da guerra entre jogadores e Fifa

O que acontece agora? Haverá mesmo uma greve?

Uma coisa é clara: quando Rodri disse "estamos perto", era uma frase. Quando a FIFPRO apresentou sua queixa, aquilo virou um caso jurídico. E, quando a decisão final dos reguladores da UE vier, o modelo financeiro vai mudar.

Na história moderna do futebol, isso poderá ser chamado de "a guerra dos jogadores pelo calendário". E, neste momento, essa guerra chega a um nível real e concreto.

O que você acha? Quem vence no fim? O dinheiro ou o corpo humano? Um mecanismo econômico ou o jogador que sai com a carreira destruída?

O calendário será reescrito todos os dias daqui em diante. Um lado vai vencer. Um lado vai perder.

E enquanto o calendário queima, os jogadores — até que de fato entrem em greve — continuam pagando com o corpo.